domingo, 29 de março de 2009

Prova de Deniz Nicolay

S.A: O Anticristo na Sala de Artes
Prof. Dr.(a) Paola Zordan
Texto-exercício referente ao 2º semestre de 2008.

Estruturas de culto, religião e ligações com o Divino:

Aquilo que está no fundo da religião Judaico-Cristã, que anima sua crença no “outro mundo” em nome dos valores escravos como afirmação “desse mundo”, não é mais do que uma terrível vontade de negação dos instintos vitais no indivíduo. Com efeito, nos movimentos da moral cristã, depois da perversão histórica dos valores: Senhores X Escravos, percebemos esse desprezo pelo sentido afirmativo da vida, essa anulação da vontade em proveito da domesticação do animal-homem. Sua interiorização, como produto das forças reativas, carrega a marca do rebanho e, portanto, da estratégia paulínea por excelência: a crença no Ser e na palavra de Deus como condição para livrar-nos do fogo do inferno. Mas trata-se de um inferno, sobretudo, moral, já que julga todas as ações do indivíduo em nome de um olhar muito particular. Ora, trata-se daquele olhar que vê a culpa do outro como um crime contra Deus, como ofensa aos princípios cristalizados do Cristianismo. Dessa forma, ele só pode partilhar do espírito do ressentimento e de seus mecanismos de produzir verdade. Uma verdade que não teme em fortalecer suas convicções sobre o solo, pedregoso e árido, dos valores cristãos. A promessa de salvação das almas funciona, assim, como motor de apaziguamento das energias instintivas e, antes de tudo, da casta dos Senhores que, para merecerem “o reino dos céus”, precisam aceitar um ‘Deus Todo Poderoso’ como atividade primordial do coração.
O mesmo coração que nega o amor à vida, ao sentido trágico e plural da existência; agora, na sombra dos sentimentos morais, vive o drama de personificar o estado máximo do simbolismo cristão. É pelo coração e para o coração dos homens que Cristo-Jesus fala quando profere as sentenças axiomáticas dos evangelhos, principalmente na interpretação dos seus apóstolos. Porém, Paulo, esse Disangelista (tipologia da figura do sacerdote cristão) consegue perverter as palavras de Cristo para fazê-las proliferar numa gama de enunciados. Esses enunciados fixam, por meio de suas cartas aos povos cristãos, um modelo de tradição e crença para toda a posteridade. Por isso, para Nietzsche, o alvo será sempre Paulo e suas estratégias de pregação. Elas demarcam as circunstâncias da negação, sua genealogia e sintomatologia, como expressões do Ser e do Devir. Ou seja, é como se conhecêssemos apenas um único sentido para a vida e o pensamento, o sentido que tem o niilismo por motor e a negação por combustível.
Aliás, o melodrama da morte de Deus, definido por Nietzsche na sua Gaia Ciência, pode ser comparado aos momentos do desenvolvimento do niilismo cristão. Nesse caso, como representação da consciência judaico-cristã, na sua forma reativa, que potencializa o ressentimento como ‘divisor de águas’ em relação a formação dos preconceitos morais, temos o que poderíamos chamar do primeiro momento. A consciência européia, ou o niilismo negativo, mobilizado pela má-consciência, que tem na produção da culpa uma forma de condenar o rebanho à submissão, ilustra o segundo momento dessa morte de Deus. Por fim, os ideais ascéticos conferem ao niilismo seu estado de passividade sublime, talvez sua graça entre a vida e a morte, nem o cristianismo com sua potente memória história consegue abranger essa força de dissolução. Representa, assim, o terceiro momento da morte de Deus, àquele que encontra na consciência budista um instante positivo para elevar a potência do nada para um nada de valor.
Mas o budismo ainda é uma religião da decadência, como o Cristianismo, entretanto, mais original, mais sincera, mais realista do que este. Além de não prometer nenhum “Reino dos Céus”, ele procura operar com a própria dissolução da identidade, do Eu e da consciência. Porque partilha de uma espécie de visão orgânica do indivíduo e seu mundo. A existência assume uma proporção além dos significados cristãos, pois entende a verdade, ou a trajetória que cada criatura faz em sua direção, como um instante iluminado (Satori no Zen Budismo), uma abertura do interior para sentir o devir das forças exteriores. Diferente, portanto, do Cristianismo que interioriza as forças ativas pelo mecanismo do ressentimento, recalcando os instintos e a vontade afirmativa da vida. Por isso, o Budismo é antes de tudo uma religião da saúde, talvez próxima do conceito nietzschiano da ‘Grande Saúde’; ele procura evitar a dor e o sofrimento, ensinando o discípulo a procurar dentro de si as razões para desconstruir qualquer valor que não tenha a vida como ideal maior.
Nesse sentido, o niilismo parte para uma outra etapa da consciência, cujas raízes devem distanciar-se do solo cristão. Os valores, igualmente imbuídos de falsidade e tirania sacerdotal, passam por uma espécie de leveza de sentido, como o trágico bailarino Zaratustra que transforma o nojo em poesia. Também, assim, uma nova tábua de valores poderá se anunciar, trazendo (ou não) a consciência Budista como égide potencializadora de um estado de graça no indivíduo.

Deniz Nicolay

0 comentários:

Postar um comentário